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SÉRIE ESPECIAL | IRMÃS TELLES: DUAS TRAJETÓRIAS, DUAS VOZES E UMA PAIXÃO PELA LITERATURA

Larissa
Telles

Entre a delicadeza das palavras e as marcas da memória.

LiteraturaPoesiaOdontologiaFilosofiaMemória
Larissa Telles ao lado de seus dois livros
Larissa Telles, escritora, poeta e acadêmica de Odontologia, autora de “A Vida é um Café Amargo — Deliciosamente Amargo” e coautora de “O Amor é uma Utopia — Dos Sabores aos Dissabores”.

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Esta entrevista dá continuidade à série especial dedicada às escritoras e irmãs gêmeas Laís e Larissa Telles, naturais de Euclides da Cunha, Bahia. Embora compartilhem obras, projetos culturais e uma relação construída em torno da literatura, cada uma desenvolveu referências, experiências e formas próprias de transformar sentimentos em palavras.

Escritora, poeta e acadêmica do último período de Odontologia, Larissa começou a escrever aos quinze anos em antigos diários. O incentivo de uma amiga a encorajou a compartilhar seus textos e, dessa experiência, nasceu o projeto @pensalary.

Sua escrita é intimista e marcada por reflexões sobre o amor, o tempo, a saudade, o luto, as ausências e as memórias que permanecem. Para Larissa, a literatura não precisa oferecer respostas prontas, mas pode fazer companhia e acolher inquietações.

EntrevistadorCONTEÚDOEntrevistadaLarissa Telles
CONTEÚDO · 01

Larissa, sua relação com a escrita começou aos quinze anos, nas páginas de antigos diários. O que você buscava registrar naquele período?

LARISSA TELLES

Comecei a escrever como uma forma de organizar pensamentos, sentimentos e inquietações que nem sempre conseguia expressar de outra maneira. Os diários eram um espaço íntimo, no qual eu podia registrar o que observava, o que sentia e as perguntas que surgiam durante aquela fase da vida. Naquele momento, eu ainda não pensava em publicação. Escrever era uma necessidade pessoal e uma forma de compreender melhor a mim mesma.

CONTEÚDO · 02

Durante algum tempo, seus textos permaneceram escondidos. O que fazia você hesitar em compartilhá-los?

LARISSA TELLES

Compartilhar um texto íntimo também significa permitir que outras pessoas tenham acesso a uma parte de nossas emoções. Havia receio de julgamento, de incompreensão e de não saber como aquelas palavras seriam recebidas. Os diários representavam um universo particular, e tornar esse conteúdo público exigiu um processo gradual de confiança e amadurecimento.

CONTEÚDO · 03

Qual foi a importância da amiga que leu seus primeiros textos e a incentivou a mostrá-los a outras pessoas?

LARISSA TELLES

Stephanie foi a primeira pessoa em quem confiei para compartilhar aquilo que escrevia. Seu incentivo me ajudou a perceber que os textos poderiam ultrapassar o espaço dos diários e encontrar identificação em outras pessoas. Às vezes, precisamos de alguém que reconheça uma possibilidade antes que nós mesmos tenhamos coragem de reconhecê-la.

CONTEÚDO · 04

Como surgiu o projeto @pensalary e o que ele representou em sua formação como escritora?

LARISSA TELLES

O projeto surgiu como uma forma de reunir e compartilhar textos que antes permaneciam restritos aos meus cadernos. O @pensalary permitiu que minha escrita chegasse a leitores que se identificavam com os sentimentos apresentados. Esse retorno foi importante para que eu compreendesse que experiências individuais também podem tocar questões universais.

CONTEÚDO · 05

Sua escrita é descrita como intimista, delicada e, em alguns momentos, melancólica. Como você compreende essas características?

LARISSA TELLES

Minha escrita parte da observação das emoções e das marcas que as experiências deixam. A melancolia não aparece apenas como tristeza, mas como uma forma de olhar para o tempo, para as ausências e para aquilo que permanece na memória. A delicadeza está na tentativa de abordar sentimentos profundos sem retirar deles sua complexidade.

CONTEÚDO · 06

Você afirma que a literatura não existe necessariamente para oferecer respostas, mas para fazer companhia. O que essa ideia representa?

LARISSA TELLES

Nem todas as experiências possuem explicações simples ou soluções imediatas. Um livro pode não resolver uma dor, mas pode ajudar o leitor a reconhecer aquilo que sente e perceber que outras pessoas também atravessaram emoções semelhantes. Quando um texto oferece identificação e acolhimento, ele já estabelece uma forma importante de companhia.

CONTEÚDO · 07

A filosofia ocupa um lugar importante entre suas referências. De que maneira ela influencia sua escrita?

LARISSA TELLES

A filosofia estimula perguntas sobre o tempo, o amor, a existência, a memória e as escolhas humanas. Ela me ajuda a observar as experiências para além do acontecimento imediato e a perceber as contradições que fazem parte da vida. Essa disposição para questionar e refletir aparece naturalmente em meus textos.

CONTEÚDO · 08

A natureza, os carros antigos e as músicas de outras épocas também fazem parte de seu universo pessoal. Como essas referências entram em seu processo criativo?

LARISSA TELLES

Essas referências me aproximam de outros ritmos e outras formas de observar o tempo. A natureza oferece silêncio e contemplação. Os carros antigos carregam histórias, detalhes e marcas de outras épocas. A música pode despertar lembranças e sentimentos que pareciam adormecidos. Muitas vezes, um texto começa justamente a partir dessas pequenas conexões.

CONTEÚDO · 09

Seu primeiro livro, “A Vida é um Café Amargo — Deliciosamente Amargo”, nasceu durante a pandemia. Como aquele período interferiu em sua escrita?

LARISSA TELLES

A pandemia trouxe isolamento, incertezas e uma necessidade intensa de compreender aquilo que estava acontecendo dentro e fora de mim. A escrita tornou-se um recurso para organizar sentimentos e atravessar aquele período. O livro nasceu dessa vulnerabilidade, mas também da procura por esperança e pela possibilidade de encontrar algum sentido mesmo nos dias mais difíceis.

CONTEÚDO · 10

Por que o café se tornou a imagem central de seu primeiro livro?

LARISSA TELLES

O café pode reunir amargor, intensidade, pausa, memória e aconchego. Essa combinação tornou-se uma metáfora para as experiências da vida, que nem sempre são agradáveis, mas podem produzir aprendizado, transformação e novas formas de perceber o caminho. A expressão “deliciosamente amargo” traduz essa convivência entre sentimentos aparentemente contraditórios.

CONTEÚDO · 11

O livro reúne textos sobre solidão, angústias, paixões, amores e autoconhecimento. Como você organizou experiências tão diferentes em uma mesma obra?

LARISSA TELLES

Procurei construir um percurso emocional que permitisse ao leitor transitar por diferentes estados e reconhecer a relação entre eles. A solidão, o amor, a angústia e o autoconhecimento não aparecem como experiências isoladas. Muitas vezes, fazem parte de um mesmo processo de compreensão e amadurecimento.

CONTEÚDO · 12

Como foi transformar textos inicialmente pessoais em uma obra destinada ao público?

LARISSA TELLES

Foi necessário revisitar os textos, perceber quais experiências poderiam estabelecer diálogo com outras pessoas e aceitar que cada leitor construiria sua própria interpretação. A publicação modificou minha relação com aquilo que escrevia, porque as palavras deixaram de pertencer apenas a mim e passaram a integrar a experiência de quem lia.

CONTEÚDO · 13

Seu segundo livro surgiu a partir de um edital apresentado por um professor que você considera seu mentor. Como essa oportunidade chegou até você?

LARISSA TELLES

A oportunidade surgiu quando esse professor, Paulo, me encaminhou um edital promovido pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê, em Sergipe, destinado à seleção de obras inéditas. O incentivo dele foi fundamental para que eu considerasse seriamente a possibilidade de participar. O Paulo sempre enxergou em mim um talento que, por muito tempo, eu mesma não consegui acreditar com a mesma intensidade que ele acreditava. Esse olhar de confiança fez toda a diferença e me deu coragem para transformar um sonho em um projeto real. A partir disso, conversei com Laís e juntas transformamos uma ideia que já existia em um livro.

CONTEÚDO · 14

Como foi construir “O Amor é uma Utopia — Dos Sabores aos Dissabores” ao lado de sua irmã gêmea?

LARISSA TELLES

Escrever com Laís significou reunir proximidade, confiança e perspectivas diferentes. Compartilhamos experiências e referências, mas cada uma possui sua própria maneira de observar e escrever. O processo conjunto permitiu que essas diferenças dialogassem dentro de uma proposta comum sobre o amor, suas expectativas, seus conflitos e suas transformações.

Larissa Telles e Laís Telles juntas em atividade literária
Larissa e Laís Telles, nesta ordem, em registro que representa a parceria literária construída pelas irmãs.
CONTEÚDO · 15

Vocês são irmãs gêmeas e compartilham parte da trajetória literária. Como é possível escrever juntas e, ao mesmo tempo, preservar a identidade e a voz autoral de cada uma?

LARISSA TELLES

A condição de irmãs gêmeas cria uma proximidade muito particular, mas não significa que pensamos ou escrevemos da mesma maneira. Temos formações, referências e experiências próprias. Quando escrevemos juntas, buscamos preservar essas diferenças, porque são elas que permitem que a obra apresente mais de uma perspectiva sobre o mesmo tema.

CONTEÚDO · 16

O que a seleção e a premiação da obra em Sergipe representaram para sua trajetória?

LARISSA TELLES

A seleção representou a concretização de um projeto que nasceu de uma oportunidade inesperada e do trabalho desenvolvido em parceria. Também demonstrou que uma produção construída por autoras do interior poderia alcançar reconhecimento fora de seu local de origem. Foi um estímulo para continuar escrevendo e buscando novos espaços para a literatura.

CONTEÚDO · 17

Sua formação está ligada à Odontologia. Como você relaciona a área da saúde com a literatura?

LARISSA TELLES

A Odontologia e a literatura me ensinaram, cada uma à sua maneira, que cuidar vai muito além do que os olhos conseguem ver. Na Odontologia, cuido de sorrisos; na escrita, encontro uma forma de acolher sentimentos. As duas exigem escuta, sensibilidade e humanidade. Acho bonito pensar que posso aliviar uma dor com as mãos, mas também com as palavras. Talvez seja por isso que nunca consegui separar essas duas partes de mim.

CONTEÚDO · 18

A convivência com a ciência interfere em sua maneira de escrever ou de observar as emoções?

LARISSA TELLES

A ciência ensina a observar com atenção, buscar fundamentos e compreender processos. A literatura permite explorar aquilo que não pode ser inteiramente medido ou explicado. Não considero essas áreas opostas. Elas oferecem formas diferentes de aproximação com a experiência humana e contribuem para ampliar meu olhar.

CONTEÚDO · 19

Você escreve a partir de amanheceres, conversas interrompidas, lembranças e silêncios. Como percebe que uma experiência cotidiana pode se transformar em texto?

LARISSA TELLES

Acredito que um texto começa muito antes da escrita. Ele nasce no modo como escolhemos olhar para o mundo. Um amanhecer, uma conversa interrompida, uma música antiga ou um silêncio aparentemente comum podem passar despercebidos para muita gente, mas, para mim, carregam perguntas. E são essas perguntas que acabam se transformando em palavras. Costumo dizer que não escrevo sobre acontecimentos, escrevo sobre o que eles despertam em mim.

CONTEÚDO · 20

Qual é a importância do silêncio e do tempo de amadurecimento em seu processo criativo?

LARISSA TELLES

O silêncio é parte essencial da minha escrita. É nele que as emoções encontram espaço para serem compreendidas antes de se transformarem em palavras. Também acredito muito no tempo de amadurecimento: nem todo sentimento está pronto para ser escrito no momento em que acontece. Às vezes, é preciso viver, refletir e deixar o tempo dar significado às experiências. Só então elas encontram sua forma mais verdadeira no papel.

CONTEÚDO · 21

Você e Laís estão trabalhando em uma terceira obra conjunta. O que já pode ser revelado sobre esse novo projeto?

LARISSA TELLES

A nova obra preserva a sensibilidade presente em nossos trabalhos, mas pretende apresentar uma abordagem diferente e explorar outras perspectivas. Estamos desenvolvendo textos e reflexões que deverão formar uma identidade própria, distinta dos dois primeiros livros. Como o projeto ainda está em construção, alguns detalhes serão apresentados no momento adequado.

CONTEÚDO · 22

O que você espera que um leitor leve consigo depois de concluir um de seus livros?

LARISSA TELLES

Espero que o leitor se reconheça em alguma palavra, lembrança ou sentimento e perceba que não está sozinho. Não pretendo oferecer respostas prontas, mas criar um espaço de identificação, reflexão e companhia. Se alguém terminar a leitura sentindo-se compreendido ou acolhido, acredito que a literatura cumpriu seu propósito.

DUAS IRMÃS, DUAS PERSPECTIVAS LITERÁRIAS

Conheça também a trajetória de Laís Telles

Larissa compartilha com a irmã gêmea uma trajetória construída entre livros, projetos culturais e ações de incentivo à leitura, mas preserva experiências, referências profissionais e maneiras próprias de compreender a literatura.

Enquanto Larissa aproxima sua escrita da filosofia, da memória e das marcas deixadas pelas experiências humanas, Laís relaciona sua produção à fisioterapia, ao cuidado, à escuta e às histórias de superação presentes em sua trajetória profissional.

Conhecer a entrevista com Laís Telles
CONTATOS E OBRAS

Acompanhe a produção literária e os projetos de Larissa Telles.

Acompanhe os perfis dedicados à autora e à sua produção literária.

Entre a ciência e a literatura, Larissa Telles constrói uma escrita dedicada às emoções, às memórias e às marcas que permanecem.

A Conteúdo Pedagógico agradece a Larissa Telles por compartilhar sua trajetória, suas referências e sua relação com a literatura. Sua experiência contribui para valorizar a produção literária do interior da Bahia e demonstra como a escrita pode estabelecer conexões entre memória, sensibilidade, ciência e cuidado humano.

Larissa Telles e Laís Telles autografando livros juntas
Larissa e Laís Telles durante uma sessão de autógrafos, em registro que encerra a segunda parte da série especial dedicada às irmãs.