Laís, como a literatura surgiu em sua vida e em que momento você percebeu que a escrita poderia se tornar uma forma de expressão pessoal?
A literatura está presente em minha vida desde a infância. Aos poucos, percebi que a escrita me permitia organizar sentimentos, registrar lembranças e transformar experiências em algo que pudesse ser compartilhado. Escrever passou a ser uma forma de compreender o que eu vivia e de estabelecer uma conexão com outras pessoas por meio das palavras.
O que você busca preservar ou revelar quando transforma sentimentos, lembranças e experiências em palavras?
Procuro preservar a verdade emocional de cada experiência. Nem sempre é o acontecimento em si que permanece, mas aquilo que ele provocou, os aprendizados e as marcas que deixou. Ao escrever, tento dar forma a essas emoções sem retirar delas a simplicidade e a possibilidade de identificação.
Sua escrita é frequentemente associada à delicadeza e à sensibilidade. Você considera que essas características surgiram naturalmente ou foram construídas ao longo de sua trajetória?
Acredito que existe uma disposição pessoal para observar e acolher as emoções, mas essa sensibilidade também foi sendo construída pelas experiências, pela leitura e pelo contato com diferentes histórias. A delicadeza, para mim, não significa evitar temas difíceis, e sim encontrar uma linguagem capaz de abordá-los com humanidade.
Como sua formação e sua atuação como fisioterapeuta influenciam sua maneira de observar as pessoas e construir seus textos?
A fisioterapia ampliou meu olhar sobre o cuidado, os limites, a persistência e a esperança. A profissão exige escuta e atenção ao percurso singular de cada pessoa. Essa convivência influencia minha escrita, sobretudo na maneira como observo as relações humanas e compreendo que cada história possui um tempo próprio.
O contato com histórias de recuperação, resiliência e esperança aparece diretamente em sua produção literária?
Essas experiências aparecem como referências humanas, sem que eu precise reproduzir histórias particulares. Elas me fazem refletir sobre recomeços, vulnerabilidade e força, temas que podem ganhar novas formas na literatura. Meu compromisso é preservar a confidencialidade das pessoas e transformar apenas os aprendizados gerais em matéria de criação.
Em sua experiência, quais aproximações podem ser estabelecidas entre a literatura e o cuidado humano?
A literatura e o cuidado começam pela escuta. Em ambos, é preciso reconhecer que cada pessoa carrega experiências que nem sempre são visíveis. Um texto pode acolher, provocar reflexão e ajudar o leitor a nomear sentimentos, enquanto o cuidado profissional também depende de presença, atenção e respeito.
Como surgiu a parceria literária com sua irmã gêmea, Larissa Telles?
A parceria nasceu da convivência, do interesse compartilhado pela literatura e das conversas sobre aquilo que líamos e escrevíamos. Ser irmãs gêmeas nos dá proximidade, mas não elimina nossas diferenças. O trabalho conjunto se tornou uma forma de colocar perspectivas distintas em diálogo.

Como foi o processo de construção da obra “O Amor é uma Utopia — Dos Sabores aos Dissabores”?
A obra foi construída a partir do desejo de discutir o amor sem idealizações. Reunimos textos que percorrem afetos, expectativas, vulnerabilidades, perdas, recomeços e amadurecimento. O título traduz esse movimento entre os sabores e os dissabores presentes nos vínculos humanos.
Qual foi sua contribuição específica para a concepção e para a escrita dessa obra?
Minha participação ocorreu na construção da proposta e na produção dos textos que integram a obra, em diálogo com Larissa. Cada uma trouxe sua experiência e sua maneira de observar o tema. Esta resposta permanece aberta a complementações sobre a divisão do trabalho, a seleção dos textos e as demais etapas editoriais.
De que maneira vocês organizam o processo criativo quando escrevem juntas?
O processo combina criação individual e diálogo. Cada uma escreve a partir de sua própria perspectiva, e depois conversamos sobre a composição do conjunto, a coerência temática e a ordem dos textos. Esse método permite que o livro tenha unidade sem apagar a voz de cada autora.
Vocês são irmãs gêmeas e compartilham parte da trajetória literária. Como é possível escrever juntas e, ao mesmo tempo, preservar a identidade e a voz autoral de cada uma?
Escrever juntas é, antes de tudo, um exercício de escuta e respeito. Compartilhamos valores, referências e uma profunda admiração pelo trabalho uma da outra, mas cada uma possui uma sensibilidade própria, um olhar particular sobre o mundo e uma maneira singular de transformar experiências em palavras. Nossa trajetória literária se encontra justamente nesse equilíbrio: caminhamos lado a lado, sem abrir mão da identidade de cada voz. Quando escrevemos em conjunto, buscamos uma harmonia em que nossas diferenças se complementam; quando escrevemos individualmente, levamos conosco tudo o que aprendemos nessa convivência criativa, preservando aquilo que torna cada escrita única.
O livro foi contemplado por um edital da Lei Aldir Blanc em Sergipe. O que esse reconhecimento representou para sua trajetória?
A seleção contribuiu para viabilizar a obra e mostrou que uma produção desenvolvida por autoras do interior poderia alcançar reconhecimento institucional. Também trouxe responsabilidade e estímulo para continuar escrevendo, aprimorar os projetos e ampliar o contato com os leitores.
Qual é a importância dos editais, programas de incentivo e políticas culturais para autores que produzem literatura fora dos grandes centros editoriais?
Essas políticas podem viabilizar publicação, impressão, circulação e atividades culturais que dificilmente seriam realizadas apenas com recursos próprios. Para autores do interior, também ajudam a reduzir distâncias e a dar visibilidade a produções que nem sempre chegam aos circuitos editoriais mais conhecidos.
Como você avalia a importância de produzir e divulgar literatura a partir de Euclides da Cunha e do interior da Bahia?
Produzir a partir de Euclides da Cunha reafirma que o interior também é lugar de criação literária. Nossas cidades possuem leitores, autores, memórias e experiências que precisam circular. Valorizar essa produção contribui para diversificar as referências culturais e aproximar novos públicos dos livros.
Além dos livros, você participa de iniciativas de incentivo à leitura e de valorização da produção cultural. Como essas atividades são desenvolvidas?
Participo, ao lado de Larissa, de ações que buscam aproximar livros e leitores e valorizar autores do interior. Entre essas experiências está a destinação de exemplares à Biblioteca Pública Municipal de Euclides da Cunha, realizada como contrapartida de um projeto apoiado pela Lei Paulo Gustavo. Posso complementar esta resposta com outras iniciativas, públicos atendidos e resultados.
Você e Larissa estão trabalhando em uma terceira obra conjunta. O que já pode ser revelado sobre esse novo projeto?
O novo livro preserva a essência poética que acompanha nossa escrita, mas propõe uma abordagem inédita. Ele reunirá textos e reflexões desenvolvidos a partir de novas perspectivas e deverá apresentar uma identidade diferente das obras anteriores. Neste momento, preferimos não antecipar detalhes que ainda estão em construção.
Em que aspectos esse terceiro livro deverá se diferenciar das obras anteriores?
A principal diferença estará na abordagem e na organização da proposta literária. Estamos buscando outros caminhos de expressão, sem abandonar a sensibilidade e o interesse pelas experiências humanas que já caracterizam nosso trabalho.
Você também está desenvolvendo seu primeiro livro solo. Como nasceu essa proposta?
A proposta nasceu do desejo de desenvolver uma narrativa mais diretamente relacionada às experiências e reflexões acumuladas em minha trajetória profissional. É um projeto distinto dos livros escritos em parceria e representa uma oportunidade de explorar minha voz individual com maior profundidade.
De que forma sua experiência profissional será incorporada à narrativa desse novo livro?
Minha experiência profissional irá atravessar o livro de maneira muito natural. Ao longo dos meus atendimentos, convivi com histórias que me ensinaram muito sobre a velhice, a solidão e as diferentes formas de abandono que podem marcar essa etapa da vida. Evidentemente, nenhuma dessas vivências será retratada de forma a expor pessoas ou experiências individuais. O que me interessa é transformar os sentimentos, as dores, os silêncios e os anseios que testemunhei em uma reflexão sensível sobre o envelhecimento. Espero que o livro convide o leitor a enxergar, com mais empatia, aqueles que tantas vezes se tornam invisíveis, lembrando que toda vida carrega uma história que merece ser ouvida.
O que representa, para você, iniciar uma produção individual depois de construir obras em parceria com sua irmã?
Representa uma nova etapa de amadurecimento. A parceria com Larissa faz parte da minha formação como escritora, enquanto o projeto solo me convida a assumir outras escolhas narrativas e a aprofundar aspectos mais diretamente ligados à minha experiência.
Que tipo de reflexão ou sentimento você espera despertar nos leitores por meio de sua escrita?
Espero que os leitores encontrem espaço para reconhecer suas próprias emoções e olhar para experiências comuns com outra perspectiva. Se um texto puder provocar reflexão, acolher uma inquietação ou criar uma conexão verdadeira, ele já terá cumprido uma função importante.
Que mensagem deixaria para pessoas que escrevem, mas ainda não tiveram coragem de compartilhar seus textos?
A escrita pode começar como um espaço íntimo e não precisa ser exposta antes que a pessoa se sinta preparada. Quando chegar o momento, é possível compartilhar primeiro com alguém de confiança, participar de grupos de leitura e aceitar que todo texto pode amadurecer. A coragem também se constrói aos poucos.


