Rosileide, que lembranças da Fazenda Cajazeiras permanecem na mulher e na escritora que você se tornou?
Nasci na Fazenda Cajazeiras, no município de Euclides da Cunha, em um tempo de muita simplicidade. Lembro da terra vermelha levada pelo vento, da luz do candeeiro nas noites escuras e da vida conduzida pelo ritmo do sertão. Sou a penúltima dos doze filhos de dona Zulmira das Neves, uma mulher que criou a família trabalhando no cabo da enxada.
Comecei a trabalhar na roça aos cinco anos, ao lado de minha mãe. Plantávamos feijão, milho, mandioca e capim, e aprendemos muito cedo a sobreviver com aquilo que a terra oferecia. Essas experiências deixaram em mim a força de minha mãe, a ligação com minhas raízes e uma maneira de enxergar a beleza e a poesia mesmo nas situações mais difíceis.
Como aconteceu sua alfabetização e que lugar a educação ocupava naquele contexto?
Fui alfabetizada em uma experiência ligada ao MOBRAL. As aulas aconteciam debaixo de um umbuzeiro e uma de minhas irmãs ensinava. Naquele lugar, as perspectivas pareciam muito limitadas, porque faltavam recursos, oportunidades e condições para continuar estudando.
Mesmo assim, o desejo de aprender nunca saiu de mim. A educação representava a possibilidade de mudar a própria história, conquistar independência e ajudar minha mãe. Esse sonho precisou esperar muitos anos, mas permaneceu guardado.
Você se casou muito jovem e precisou interromper os estudos. Como foi tentar retornar à escola naquela época?
Casei-me aos dezesseis anos e, aos dezessete, já era mãe. Voltei a estudar levando minha filha de colo para a escola. Em vez de encontrar apenas acolhimento, enfrentei preconceito, brincadeiras de mau gosto e humilhações, inclusive em um espaço que deveria incentivar quem estava tentando recomeçar.
Grávida da segunda filha, concluí a antiga oitava série em 1989. Depois, com a responsabilidade de cuidar da casa e criar três meninas pequenas, precisei interromper novamente os estudos. Eu queria que minhas filhas tivessem oportunidades diferentes e me dediquei inteiramente à formação delas.
Depois de 28 anos afastada da sala de aula, o que a fez voltar a estudar?
Quando minhas filhas já haviam concluído o Ensino Médio e a caçula ingressou na faculdade, elas se tornaram minhas professoras. Pelo celular, enviavam temas de redação do ENEM, eu escrevia e devolvia os textos para que fossem corrigidos. Aos poucos, reaprendi a estudar e comecei a me preparar para o Encceja.
Eu já estava com cinquenta anos e ainda tinha receio de voltar para uma sala de aula ao lado de adolescentes. Estudei as apostilas do Ensino Médio, enfrentei uma prova que ocupou praticamente todo o domingo e recebi o resultado justamente no dia do meu aniversário. Foi quando compreendi que era capaz e que ainda podia realizar o sonho de cursar uma faculdade.
O que significou ingressar em Pedagogia e concluir uma graduação aos 54 anos?
Ingressei no curso de Pedagogia em 2019. Para mim, não foi apenas a entrada em uma faculdade, mas a retomada de um projeto que havia começado na infância e sido interrompido muitas vezes pelas circunstâncias da vida. Entre os doze filhos de minha mãe, fui a única que conseguiu concluir uma graduação.
Formar-me aos cinquenta e quatro anos confirmou aquilo em que sempre acreditei: não existe idade determinada para aprender. A educação transforma a maneira como a pessoa se enxerga, amplia suas possibilidades e permite que ela ocupe lugares que durante muito tempo pareceram reservados a poucos.
Em que momento a escrita passou a acompanhar esse retorno aos estudos?
Enquanto cursava Pedagogia, eu escrevia contos e poesias como desabafo, protesto, alerta e esperança. A escrita se tornou uma forma de organizar a experiência e também de dizer a outras pessoas que elas podiam seguir, estudar e realizar os sonhos que haviam guardado.
Minha poesia nasce da vida no sertão, das mulheres, da memória, dos afetos e das dificuldades transformadas em linguagem. A mulher sertaneja, para mim, é como a flor do mandacaru: encontra um modo de desabrochar mesmo quando o caminho é duro.

“Canto Lírico”
Entre os textos de Rosileide Neves, este é o meu preferido. A delicadeza do beija-flor, das flores, do luar e do desejo amoroso mostra outra dimensão de uma escrita também formada pela resistência: a capacidade de preservar ternura, beleza e encantamento.
— David SouzaOs livros também estiveram presentes na criação de suas filhas. O que a leitura representava para sua família?
Quando minhas filhas eram pequenas e pediam brinquedos, sempre que podia eu lhes oferecia livros. Eu via cada livro como um passaporte para conhecer outros lugares, desenvolver o pensamento e imaginar novas possibilidades.
Acompanhei de perto toda a formação delas. Hoje, uma é fonoaudióloga, outra é médica nefrologista e a caçula é engenheira mecânica, com duplo diploma obtido na França. Tenho muito orgulho das trajetórias que construíram e reconheço na educação uma parte decisiva dessas conquistas.

Como sua experiência pessoal se transformou em atuação junto a outras mulheres e estudantes?
Sou licenciada em Pedagogia, mas optei por não atuar como professora em sala de aula. Escrevo diariamente poesias, contos, crônicas e poemas, ministro palestras motivacionais e dou aulas de corte e costura. Não atuo profissionalmente como pedagoga.
Já conversei com estudantes da EJA, jovens, mulheres e comunidades escolares sobre literatura, educação, inclusão, desafios e oportunidades. Também atuei voluntariamente ensinando corte e costura a mulheres em situação de vulnerabilidade. Quando alguém retorna à sala de aula depois de me ouvir, sinto que minha história ganhou uma finalidade coletiva.
O que seus livros representam em sua trajetória e que caminhos você pretende seguir na literatura?
Publiquei “A Vida Pelos Olhos da Poesia”, em 2022, e “Cantigas da Alma”, em 2023, além de participar de revistas, antologias e projetos literários. Também venho trabalhando em romances, entre eles “Histórias em Retalhos” e “A Cor de um Sonho”, e escrevi letras de canções.
Quero continuar estudando, escrevendo, participando de eventos e levando a literatura a escolas e comunidades. Aos cinquenta e oito anos, continuo sonhando e desejo, sobretudo, ver outras pessoas realizando seus próprios projetos. Enquanto houver disposição para colocar um pé à frente do outro, ainda haverá tempo para construir uma nova história.


