Monica, quando você olha para sua formação em São Paulo, o que reconhece como origem do seu trabalho artístico?
Reconheço uma relação com as artes que se tornou escolha profissional por meio da formação em Educação Artística na Universidade São Judas. A universidade organizou conhecimentos e práticas, mas também confirmou algo que já fazia parte da minha maneira de observar o mundo.
A arte nunca ficou restrita a uma única linguagem. Ela passou pela criação visual, pela educação e, mais tarde, encontrou na literatura outro modo de elaborar experiências, lembranças e personagens.
Morar há mais de três décadas em Colônia alterou sua relação com o Brasil e com a própria identidade?
Viver na Alemanha ampliou meu repertório e me colocou em contato com outras referências culturais, sem romper a ligação com o Brasil. A distância muda o olhar: certos costumes, afetos e memórias ganham contornos mais nítidos quando são vistos de outro território.
Colônia se tornou o lugar da minha vida familiar, profissional e artística, enquanto o Brasil permaneceu presente na língua, nas histórias e nas raízes que atravessam a escrita.
O aperfeiçoamento em Artes Plásticas com Jung Suk Ryu trouxe que aprendizados para sua trajetória?
Esse processo aprofundou a percepção de composição, cor, forma e detalhe. Também reforçou a importância da disciplina: a criação precisa de liberdade, mas depende de observação, exercício e disposição para rever o próprio trabalho.
Na literatura, levo comigo esse olhar visual. Muitas cenas começam como imagens, e a construção dos ambientes procura oferecer ao leitor uma experiência sensorial, quase pictórica.
Como a professora de Artes e a escritora se encontram no cotidiano?
Atualmente trabalho com jovens entre 11 e 18 anos e ensino Artes a turmas do 5º ao 9º ano. A sala de aula mantém vivo o contato com diferentes formas de imaginar, interpretar e comunicar uma ideia.
Ensinar também exige escuta, clareza e sensibilidade diante de ritmos muito diversos. Esses elementos aparecem na escrita, especialmente na atenção dedicada às motivações das personagens e às consequências de suas escolhas.
Onde as Raízes Estão reúne memória familiar, ficção e investigação. Como essas camadas passaram a conviver no mesmo romance?
O livro nasceu do desejo de compreender como acontecimentos familiares continuam repercutindo ao longo do tempo. A ficção ofereceu liberdade para organizar essa matéria, criar personagens e construir uma trama que atravessa diferentes períodos.
A dimensão investigativa amplia o movimento da narrativa: o passado não aparece apenas como lembrança, mas como algo que precisa ser examinado para que silêncios, responsabilidades e vínculos possam ser compreendidos.
Por que a história de Cora, Mariana e Joca precisava começar na São Paulo das décadas de 1960 e 1970?
Esse período permite acompanhar uma família antes e depois de uma ruptura profunda. A trajetória dos três irmãos se transforma com a perda da mãe, a reorganização da casa e as experiências distintas que passam a viver.
Ao situar a narrativa nesse tempo, foi possível observar também valores familiares, formas de autoridade e silêncios que marcaram gerações, sem perder de vista a maneira como essas experiências alcançam o presente.
A palavra ‘raízes’ sugere pertencimento, mas também aquilo que permanece escondido. O que ela representa no livro?
As raízes sustentam, conectam e guardam uma história que nem sempre está visível. No romance, elas se relacionam à origem familiar e aos laços entre os irmãos, mas também aos segredos e traumas que continuam atuando mesmo quando ninguém fala sobre eles.
Procurar onde as raízes estão significa olhar para o passado sem idealizá-lo, reconhecendo tanto os vínculos que acolhem quanto aquilo que precisa ser enfrentado.
Depois desse primeiro romance publicado e da participação em antologias, que caminhos você deseja continuar explorando?
Quero continuar trabalhando na fronteira entre memória e invenção, preservando a liberdade de experimentar novas histórias. Tenho outros textos escritos e um novo livro em desenvolvimento, num processo que reúne pesquisa, revisão e amadurecimento.
A literatura passou a ocupar um espaço cada vez mais consistente ao lado da docência e das Artes Plásticas. São linguagens diferentes, mas todas partem da mesma necessidade de observar, criar e compartilhar uma experiência.

