VOZES E EXPERIÊNCIAS · ENTREVISTA 01

Eduardo
França

História, literatura e memória do sertão em uma conversa sobre leitura, pesquisa e criação.

LiteraturaHistóriaCanudosJuazeiro
Eduardo França, professor de História e escritor
Professor de História e escritor, natural de Juazeiro da Bahia.

A

Eduardo França de Souza faz da História matéria de criação literária. Sua trajetória reúne formação acadêmica, pesquisa, poesia, dramaturgia, cordel e uma relação profunda com as paisagens e memórias do norte da Bahia.

Em 2026, O Cordel da Tragédia: ou os poemas do Trágico fim de Canudos foi selecionado para o Cais da Palavra, programação da Juá Literária — Um Rio de Letras. O livro será apresentado no festival, que também destacou Eduardo entre seus homenageados.

EntrevistadorCONTEÚDOEntrevistadoEduardo França
CONTEÚDO · 01

Eduardo, como a literatura e a História entraram na sua vida?

EDUARDO FRANÇA

Sou natural de Juazeiro da Bahia e, desde a infância, tenho contato com a literatura e a História, por influência familiar e pelas experiências pessoais que me fizeram gostar do mundo da leitura e das narrativas.

O desejo de ser escritor começou na adolescência, quando criei um vínculo mais forte com a leitura. Uma obra marcante foi uma edição adaptada do Livro das Maravilhas, que li aos doze anos por estímulo de um programa escolar. As descrições de Marco Polo me encaminharam para os clássicos e para a literatura de viagens, unindo o gosto pela literatura ao interesse pela História.

CONTEÚDO · 02

Como esse interesse se transformou em formação e pesquisa?

EDUARDO FRANÇA

O interesse pelo estudo da História me levou à Licenciatura em História pela Universidade de Pernambuco, em Petrolina. Outras áreas das humanidades, como filosofia e teologia, também me motivaram a concluir uma pós-graduação em Teologia Filosófica pela UniFil.

Desde a formação, desenvolvi pesquisas sobre temas como as ideias políticas no Trecento italiano, o messianismo português no Brasil Colônia e as origens franciscanas das carrancas no Submédio São Francisco.

CONTEÚDO · 03

De que maneira a pesquisa histórica deu origem à sua produção literária?

EDUARDO FRANÇA

A produção literária nasceu de um anseio da pesquisa histórica. Antes de ingressar na universidade, eu desejava observar possíveis descendentes dos civis da Guerra de Canudos nos distritos de Monte Santo e relacionar suas condições sociais ao massacre.

A ideia não se transformou em pesquisa acadêmica, mas inspirou uma obra literária que tem o norte da Bahia — Canudos, Euclides da Cunha, antigo Cumbe, e Juazeiro — como pano de fundo. A experiência de viver nessa região se encontrou com os estudos sobre Canudos e com referências da literatura épica ocidental.

CONTEÚDO · 04

Como nasceu O Cordel da Tragédia?

EDUARDO FRANÇA

O Cordel da Tragédia: ou os poemas do Trágico fim de Canudos nasceu dessas influências e foi publicado em 2021 pela Editora Garcia. A obra reúne elementos da epopeia e da tragédia com a literatura popular do Nordeste brasileiro e a literatura de cordel.

O enredo é conduzido por um repentista cego, em alusão aos aedos, a Homero, Milton e Cego Aderaldo. Ele apresenta, em versos rimados organizados em septilhas, as consequências da Guerra de Canudos. A proposta é relacionar a pluralidade e a complexidade da História do Nordeste à própria História Ocidental.

CONTEÚDO · 05

O que o público encontrará em O Tártaro?

EDUARDO FRANÇA

A segunda obra foi publicada em 2024 pela Editora Vecchio e nasceu sob a influência da tragédia e da dramaturgia. As referências de Sófocles e Ésquilo se encontram com discussões contemporâneas sobre liberdade e sofrimento.

O Tártaro também se relaciona às minhas pesquisas acadêmicas sobre celebrações fúnebres nos poemas homéricos. Na peça, três condenados refletem sobre suas punições e sobre a condição de encarcerados pelos deuses olímpicos.

CONTEÚDO · 06

Em Poesia Historyca, como você transforma o tempo histórico em poesia?

EDUARDO FRANÇA

Poesia Historyca foi publicada digitalmente pela UICLAP em 2025. É minha primeira obra formada por um conjunto de poesias e trata do desenrolar da História a partir de uma perspectiva simbolista, considerando a ideia de horizonte de expectativa.

O livro percorre narrativas, mitos e acontecimentos até meados do século XX, por meio de descontinuidades e grandes saltos históricos. Também reúne as Poesias do Sol, textos que escrevi de maneira avulsa desde a pandemia.

CONTEÚDO · 07

Seu trabalho mais recente se aproxima do ensaio teológico. Como surgiu Eu, Deus e o Próximo?

EDUARDO FRANÇA

Em 2026, apresentei o pré-lançamento de Eu, Deus e o Próximo: textos sobre a dinâmica do amor cristão. É minha primeira obra no gênero ensaio e procura abordar, de maneira não sistemática, as relações de amor presentes no grande mandamento.

O eu, o próximo e Deus são os atores desse diálogo, no qual o amor ágape atua como elemento central. As reflexões giram em torno da experiência transcendente do amor na comunidade humana e de sua relação com o divino.

CONTEÚDO · 08

Que aprendizado você compartilharia com quem deseja fazer da escrita um ofício?

EDUARDO FRANÇA

O trabalho do escritor se constrói a partir de suas leituras e inspirações. Elas precisam ser maiores do que os desafios, porque as dificuldades de publicação e divulgação são imensas, mas a determinação deve ser maior.

Quem deseja fazer da escrita um ofício precisa acreditar na qualidade de suas obras e na mensagem que pretende transmitir. Muitas vezes, o desânimo pode ser tão cruel quanto o bloqueio criativo. A trajetória de escritores que produziram em meio às adversidades nos lembra que os obstáculos podem ser superados pelo amor ao ofício.

MINIBIOGRAFIA

Eduardo França de Souza

Professor de História, pesquisador e escritor juazeirense. É licenciado em História pela Universidade de Pernambuco e pós-graduado em Teologia Filosófica. É autor de O Cordel da Tragédia, O Tártaro, Poesia Historyca e Eu, Deus e o Próximo.