Célia, que lugar Lagoa do Guedes e Euclides da Cunha ocupam na sua história?
Nasci no povoado de Lagoa do Guedes, no município de Euclides da Cunha, Bahia. Sou natural de Euclides da Cunha, do Cumbe do Major, e foi nesse território que começou minha relação com os estudos, com a família e com as histórias que mais tarde encontrariam lugar na escrita.
Casei-me cedo, antes de concluir minha formação, e tenho dois filhos. Mesmo com as responsabilidades da vida familiar, continuei estudando, mudei-me para a cidade e ingressei em uma universidade pública. Priorizar a educação sempre foi uma decisão importante em minha trajetória.
Como a graduação em Letras aproximou você da literatura e da escrita?
Sou formada em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, no Campus XXII, em Euclides da Cunha. O curso despertou em mim um amor ainda maior pela literatura, pelas narrativas e pelas possibilidades da linguagem.
Depois da graduação, fiz pós-graduações na área da Linguística. Embora tenha sido convocada em concurso público para trabalhar na área da saúde, não abandonei as Letras. Continuei ligada à leitura, à escrita e à formação, conciliando os caminhos profissionais que a vida apresentou.
O que mudou em sua relação com a escrita durante a pandemia?
A pandemia trouxe isolamento, solidão e muitas experiências difíceis de organizar. Comecei a escrever poemas sobre o que vivenciava e percebi que colocar essas emoções no papel era uma maneira de compreendê-las e atravessar aquele período.
Em 2022, participei das antologias História de um Tempo e Escritas da Alma Feminina, organizadas por Anita Santana e Adalberto Silva. Quanto mais escrevia, mais crescia meu vínculo com a literatura. Também criei no Instagram a página Poesias Tecidas, que mantenho até hoje.
Quando você percebeu que o desenvolvimento de seu filho precisava de uma atenção mais específica?
Durante a pandemia, comecei a observar que meu filho, então com três anos, não apresentava alguns marcos do desenvolvimento que eu esperava. No início, considerei que o isolamento e a falta de socialização poderiam explicar parte daquela situação, mas sentia que precisava investigar além disso.
Procurei ajuda profissional em uma época na qual era difícil encontrar os atendimentos necessários. Quando ele tinha quatro anos, recebemos o diagnóstico de autismo. Embora eu já considerasse essa possibilidade, foi um momento que exigiu reorganização, estudo e uma nova maneira de compreender as necessidades dele.
Como a busca por compreender o autismo transformou sua formação e sua atuação como mãe?
Entendi que, para ajudar meu filho, eu precisava aprender sobre autismo e desenvolvimento. Fiz curso de intervenção precoce e, com supervisão profissional a distância, passei a acompanhar de perto as atividades terapêuticas dele. Como em minha cidade não havia todos os profissionais de que precisávamos, preparei um pequeno espaço em casa e reservava diariamente um período para esse acompanhamento.
Esse processo me levou à Psicopedagogia e, depois, à graduação em Terapia Ocupacional, que estou concluindo. Continuei trabalhando na área da saúde, mas também fui construindo novos conhecimentos para compreender meu filho e colaborar de maneira responsável com seu desenvolvimento.
Em que momento essa experiência começou a se transformar no livro Sentimento Azul?
Enquanto acompanhava o desenvolvimento de meu filho, escrevia sobre minhas angústias, as frustrações, os medos que ele superava e cada avanço que conseguíamos perceber. Aos poucos, comecei a organizar esses relatos como se ele próprio estivesse contando sua história.
Foi assim que nasceu Sentimento Azul. O livro procura mostrar que o autismo existe e que a sociedade precisa compreender, respeitar e acolher as pessoas autistas. A escrita me permitiu transformar uma experiência familiar em uma conversa com outras famílias e com a comunidade.
Por que você afirma que a inclusão começa dentro da família?
Muitas famílias reivindicam inclusão para seus filhos, mas ainda encontram dificuldade para reconhecer e apresentar com naturalidade a identidade da pessoa autista. Em minha experiência, aceitar o diagnóstico não significa reduzir a criança a ele, mas compreender suas necessidades, respeitar seu modo de existir e buscar os apoios adequados.
Aprendi que a família é o primeiro espaço no qual a inclusão precisa acontecer. Quando a família compreende, acolhe e se informa, ela se fortalece para dialogar com a escola, com os serviços de saúde e com a sociedade, sem esconder a pessoa nem negar suas particularidades.
Como você define a forma e o propósito de Sentimento Azul?
É uma obra breve, composta por poemas e pequenas crônicas que convidam o leitor a refletir sobre atitudes, aceitação e convivência. Embora tenha poucas páginas, carrega sentidos construídos a partir de experiências muito profundas para mim e para outras famílias.
Meu propósito é contribuir para que o autismo seja compreendido com mais responsabilidade e sensibilidade. Não pretendo oferecer respostas para todas as experiências, porque cada pessoa autista é única, mas abrir espaço para escuta, informação, respeito e inclusão.
Que caminhos você deseja seguir depois de Sentimento Azul?
Meus estudos não pararam. Estou concluindo minha segunda graduação, o bacharelado em Terapia Ocupacional, e quero continuar me especializando para compreender cada vez melhor o desenvolvimento humano e as diferentes formas de cuidado.
Também pretendo publicar outros livros nessa área, reunindo literatura, experiência familiar e conhecimento construído ao longo da formação. A escrita continua sendo o lugar em que consigo transformar vivências em reflexão e estabelecer diálogo com outras pessoas.



