O crescimento das feiras, festas, bienais e festivais literários deveria ser recebido como uma boa notícia. Em um país no qual bibliotecas permanecem fechadas, livrarias desaparecem de muitas cidades e o acesso ao livro ainda depende fortemente da escola, qualquer espaço que aproxime autores, obras e leitores merece atenção. Esses eventos movimentam a economia local, dão visibilidade à produção literária, oferecem atividades formativas e podem proporcionar ao estudante o primeiro contato direto com um escritor.
A expansão, contudo, não autoriza uma celebração sem perguntas. Na Bahia, por exemplo, o Programa Bahia Literária previu investimento de R$ 24,3 milhões na realização de 81 festas, feiras e festivais, distribuídos pelos 27 Territórios de Identidade. Trata-se de uma política pública de proporções relevantes, com projetos de até R$ 300 mil cada. Ao mesmo tempo, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que, pela primeira vez na série histórica, os não leitores passaram a constituir a maioria da população: 53% dos brasileiros não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. A média de livros lidos também caiu. A contradição não demonstra que as feiras sejam inúteis, mas impede que sua quantidade seja apresentada automaticamente como prova de formação de leitores. Fontes: Fundação Pedro Calmon e Instituto Pró-Livro.
Há mais eventos literários, mais palcos, mais fotografias e mais postagens. Não está igualmente demonstrado que existam mais leitores. Tampouco se sabe, em muitos casos, quantos livros foram efetivamente adquiridos, quantos autores locais conseguiram alcançar novos públicos, quantas pessoas passaram a frequentar bibliotecas ou quais ações de leitura permaneceram depois que as tendas, os equipamentos de som e os painéis publicitários foram desmontados.
Há mais eventos literários, mais palcos, mais fotografias e mais postagens. Não está igualmente demonstrado que existam mais leitores.
O prefeito como centro político da feira
Nas feiras promovidas ou apoiadas pelo município, a apropriação política mais imediata nem sempre parte do parlamentar que destinou a emenda, mas do prefeito que sedia o evento e controla grande parte de sua estrutura. A administração municipal disponibiliza o espaço, organiza a logística, mobiliza servidores, transporta estudantes, convoca as escolas, contrata serviços, produz a comunicação institucional e participa da definição do protocolo. Mesmo quando o prefeito não aparece formalmente como curador, o governo municipal possui condições concretas de influenciar quem organiza, quem participa, quem fala e quem recebe maior visibilidade.
Por isso, é necessário perguntar como a equipe organizadora foi formada. Seus integrantes foram escolhidos por experiência comprovada no campo literário ou por proximidade com a gestão? Houve participação do Conselho Municipal de Cultura, de bibliotecários, professores, autores independentes, universidades, academias de letras, coletivos periféricos, editoras locais e demais segmentos culturais? Esses representantes foram indicados por suas próprias instituições ou convidados individualmente pela prefeitura? Houve espaço para pessoas que mantêm posições críticas em relação ao governo municipal ou a representação da sociedade ficou restrita aos grupos com os quais a gestão possui relações políticas mais confortáveis?
A presença de representantes da sociedade civil não comprova, por si só, independência ou pluralidade. Uma comissão pode parecer diversa em fotografias e materiais de divulgação, embora tenha sido montada a partir de convites dirigidos às pessoas já próximas do governo. Nesse modelo, artistas, professores, escritores, dirigentes de associações e integrantes de grupos culturais passam a oferecer ao evento uma aparência de participação social, enquanto as decisões centrais continuam concentradas na prefeitura e em pessoas de sua confiança. A representação social deixa de funcionar como instância de diálogo e passa a servir como moldura de legitimidade para escolhas tomadas anteriormente.
O uso político também não depende da realização de pedido explícito de votos. O palanque pode ser construído pelo protocolo: o prefeito ocupa o centro da abertura, recebe agradecimentos sucessivos, faz o discurso mais longo, aparece ao lado dos convidados de maior prestígio, distribui livros ou vales diante das câmeras, utiliza estudantes e professores como plateia e transforma os canais oficiais do município em uma sequência de publicações sobre sua presença. A feira é apresentada como realização pessoal do governante, e não como política cultural financiada pela população e executada por instituições públicas.
A situação se torna mais grave quando a curadoria reproduz o mesmo círculo político. Autores, artistas, influenciadores, mediadores e representantes culturais ligados à gestão recebem convites, espaço e divulgação, enquanto pessoas que não participam desse ambiente permanecem fora, ainda que tenham produção relevante e relação efetiva com o território. Não é necessário que exista uma ordem escrita para excluir alguém. A composição homogênea da equipe organizadora, o sistema fechado de indicações e a ausência de chamadas públicas podem produzir esse resultado sem que nenhum responsável precise assumir formalmente a decisão.
Nesse contexto, o prefeito pode colher os benefícios políticos do evento mesmo quando os recursos vieram de emenda parlamentar, de edital estadual, do governo federal ou de outras fontes. A execução municipal passa a ser apresentada como prova da sensibilidade cultural do gestor. O dinheiro possui origem pública e institucional, mas a imagem produzida pela feira é apropriada pessoalmente pelo governante. Quanto menos transparentes forem a composição da comissão, os critérios curatoriais e a seleção dos representantes sociais, maior será o risco de a literatura funcionar apenas como cenário para uma campanha permanente.
A emenda parlamentar e a fabricação da gratidão
As emendas parlamentares são instrumentos legítimos de alocação orçamentária e podem viabilizar projetos que não aconteceriam sem apoio público. O Ministério da Cultura informou que, somente em 2025, foram empenhados R$ 248,6 milhões em projetos culturais provenientes de 178 emendas individuais. Esse valor abrange diversas áreas da cultura, e não apenas eventos literários, mas revela a dimensão do poder parlamentar sobre a distribuição desses recursos. Fonte: Relatório de Gestão do Ministério da Cultura.
O problema não está necessariamente na origem parlamentar do recurso, mas na transformação de uma decisão orçamentária em gesto de generosidade pessoal. O parlamentar não doa dinheiro próprio, embora a comunicação política frequentemente apresente a emenda como presente oferecido à cidade, à entidade organizadora ou aos artistas. O recurso continua sendo público, formado pelos tributos pagos pela sociedade. O deputado, senador ou vereador apenas participou de sua destinação.
Quando a programação reserva espaço excessivo para agradecimentos, discursos, fotografias com autoridades e repetição do nome do responsável pela emenda, o livro começa a funcionar como cenário para a construção de capital político. A feira deixa de apresentar uma política pública e passa a encenar a gratidão coletiva a quem pretende receber eleitoralmente os créditos por ela. Em ano eleitoral, essa apropriação se torna ainda mais sensível, mas a Constituição proíbe em qualquer tempo que a publicidade pública seja utilizada para promoção pessoal de autoridades. Referência: art. 37, § 1º, da Constituição Federal.
A legislação também contém uma abertura que merece ser conhecida. Nos termos do artigo 29 da Lei nº 13.019/2014, os termos de fomento ou de colaboração financiados com emendas parlamentares podem ser celebrados sem chamamento público prévio. Isso não significa liberdade para gastar sem controle: continuam obrigatórias a demonstração do interesse público, a análise da capacidade da organização, a aprovação do plano de trabalho, a compatibilidade dos custos, o acompanhamento da execução e a prestação de contas. Significa, entretanto, que a escolha da organização executora pode ocorrer sem disputa pública, aumentando a necessidade de transparência sobre as relações entre parlamentar, entidade beneficiada, produtores e fornecedores. Referência: Lei nº 13.019/2014.
Existem experiências que demonstram ser possível informar claramente a origem e a aplicação dos recursos. A Feira do Livro de Joinville, por exemplo, mantém página de transparência na qual aparecem um termo de fomento de R$ 300 mil para palestras e outro de R$ 250 mil para distribuição de vales-livros a professores. A divulgação permite identificar valores, objeto, organização executora, processo administrativo e fonte dos recursos. Fonte: Transparência da Feira do Livro de Joinville. A existência dessas informações, porém, abre outras perguntas: quem foi contratado para as palestras, quanto recebeu cada participante, quais vendedores puderam receber os vales, como foram credenciados e quanto da receita pública terminou concentrado em determinadas editoras, livrarias ou distribuidoras?
Transparência não consiste apenas em publicar o valor global da emenda. É preciso mostrar o caminho percorrido pelo dinheiro.
Quem escolhe aqueles que serão chamados de importantes
Nenhuma feira pode convidar todos os escritores. Selecionar autores, obras e temas faz parte do trabalho curatorial. A subjetividade, portanto, não pode ser eliminada, mas pode ser reconhecida, qualificada e submetida a critérios minimamente explicáveis.
A palavra “curadoria” não deveria servir como licença elegante para escolhas pessoais. Quem integra a comissão? Qual é sua formação? Que obras foram lidas? Houve pesquisa sobre os autores? A seleção considerou a relação entre obra, tema, público e território ou reproduziu indicações pessoais? Foram avaliadas somente reputação, número de seguidores, proximidade política e capacidade de gerar fotografias para as redes sociais?
Um estudo publicado em 2025 sobre curadoria literária na Bahia, construído a partir de 21 relatórios de eventos e de depoimentos relacionados à organização dessas experiências, encontrou ausência de pesquisa literária sobre a vida e a obra de autores, fragilidade na apropriação de ferramentas curatoriais e falta de profissionalização em parte das experiências analisadas. O mesmo trabalho observou a predominância de atrações de teatro e música e registrou situações nas quais a movimentação do público parecia ocupar mais espaço do que a centralidade da literatura. A pesquisa não autoriza generalizações sobre todas as feiras, mas confirma que a dúvida sobre a consistência da seleção não é mera desconfiança de quem ficou fora da programação. Fonte: estudo “Curadoria literária na Bahia”.
A pergunta incômoda, portanto, é inevitável: os responsáveis pela seleção leram efetivamente os autores convidados?
Não basta conhecer a biografia, ter recebido uma indicação ou acompanhar o perfil do escritor nas redes sociais. Também não basta saber que ele pertence ao mesmo círculo cultural, ao mesmo grupo político ou à mesma rede de contatos da comissão. A curadoria deveria ser capaz de explicar por que determinada obra contribui para o tema do evento, para a formação do público e para a ampliação do repertório literário.
A participação de influenciadores também pode ser legítima, especialmente quando existe um projeto claro de aproximação com públicos mais jovens. O número de seguidores, entretanto, mede alcance digital, não qualidade literária, capacidade de mediação ou contribuição cultural. Quando os seguidores se tornam o critério real, mas não declarado, a feira troca a bibliodiversidade pela audiência instantânea. O palco passa a ser distribuído segundo a mesma lógica das plataformas digitais: aparece quem já aparece, recebe atenção quem já possui atenção e permanece invisível quem ainda precisa ser descoberto.
A homogeneidade da comissão tende a produzir homogeneidade na programação. Isso pode ocorrer sem reunião secreta, fraude ou conspiração. Basta que todos leiam as mesmas editoras, frequentem os mesmos ambientes, compartilhem as mesmas referências, sigam os mesmos perfis e considerem importantes as pessoas que o próprio grupo já legitimou. O resultado será apresentado como seleção cultural, embora possa ser apenas a reprodução educada de uma rede de relações.
A política também pode entrar pela porta da censura
A interferência política não ocorre apenas quando autoridades usam o palco para discursar. Ela também aparece quando o agente político pretende decidir quem pode subir ao palco.
Em 2025, a participação da jornalista Milly Lacombe na Festa Litero Musical de São José dos Campos foi cancelada por decisão do prefeito, que afirmou que as posições da convidada contrariavam os valores da cidade. Autores, editoras e integrantes da curadoria deixaram o evento, que acabou adiado. O episódio demonstrou que uma programação formalmente curada pode ser submetida posteriormente ao juízo ideológico do governante. Fonte: Poder360.
Em São Paulo, também em 2025, a autorização de uso da Praça das Artes pela Festa Literária Pirata das Editoras Independentes foi cancelada às vésperas do evento. A Fundação Theatro Municipal alegou conteúdo político e viés eleitoral; os organizadores denunciaram censura e transferiram a programação para espaços alternativos. Fonte: Poder360.
Esses episódios mostram que a expressão “palanque político” precisa ser usada com cuidado. Ela pode descrever a apropriação real de um evento financiado pela população, mas também pode ser empregada pelo governante para retirar vozes incômodas. Uma feira pública não deve servir à propaganda do governo, da oposição ou da entidade organizadora, mas também não pode confundir neutralidade institucional com proibição do conflito de ideias. Literatura que somente confirma os valores da autoridade financiadora não é pluralidade; é programação tutelada.
A feira do livro e o mercado reservado
A programação cultural é apenas uma parte do evento. A outra é comercial. Livrarias, editoras e distribuidoras ocupam estandes, vendem obras, recebem vales-livros e se beneficiam da circulação de estudantes, professores e famílias. Essa dimensão precisa ser submetida à mesma transparência exigida das contratações e dos cachês.
Quem autorizou essas empresas a vender? Houve credenciamento público? Quantas vagas foram disponibilizadas? Existia exclusividade? Foram cobradas taxas? Autores independentes puderam se inscrever diretamente? Os vales financiados com recursos públicos podiam ser utilizados em todos os estandes ou somente em vendedores determinados?
Em Curitiba, um edital ofereceu 13 vagas comerciais, sendo sete para editoras e seis para livrarias, com preferência para estabelecimentos que vendessem obras dos autores participantes da programação. A medida possui uma justificativa operacional, mas evidencia como uma primeira escolha curatorial pode determinar as oportunidades comerciais subsequentes: escolhem-se os autores, depois se favorecem os vendedores que comercializam esses autores. Fonte: Prefeitura de Curitiba.
Em outros eventos, o credenciamento é restrito a pessoas jurídicas, condição que pode afastar o escritor independente que publica e vende seus próprios livros, mas não possui empresa. Foi essa, por exemplo, a regra divulgada para a feira de Três de Maio em 2026. Fonte: Prefeitura de Três de Maio.
Existem alternativas. O Festival Mário de Andrade abriu credenciamento para autores independentes, editoras e coletivos, oferecendo espaços gratuitos e adotando critérios ligados à diversidade temática e à pluralidade. A própria justificativa reconhecia que pequenos editores e artistas independentes geralmente não possuem condições de participar das grandes feiras. Fonte: Prefeitura de São Paulo.
Portanto, marginalizar o autor independente não é uma consequência inevitável da organização de uma feira. É uma escolha de desenho institucional. Nem todos poderão integrar as mesas principais, mas é possível reservar estandes coletivos, criar sessões rotativas de lançamentos, publicar chamadas abertas, manter catálogo dos autores locais e permitir comercialização direta. Quando apenas convidados podem expor, participar e vender, a feira não revela a literatura produzida no território; ela exibe somente a literatura previamente autorizada pela comissão.
As perguntas que deveriam acompanhar cada feira
Antes de considerar um evento bem-sucedido, a sociedade deveria conhecer respostas objetivas:
- Quem financiou a feira e qual foi o valor de cada fonte?
- Quem indicou a organização executora e houve seleção pública?
- Quem integrou a curadoria e quais critérios foram adotados?
- Quais obras dos convidados foram examinadas durante a seleção?
- Quanto cada autor, artista, mediador e influenciador recebeu?
- Quantos participantes eram locais, estreantes ou independentes?
- Como foram escolhidas editoras, livrarias e distribuidoras?
- Existiu exclusividade para exposição, venda ou recebimento de vales-livros?
- Quantos livros foram comercializados e quantos permaneceram no município?
- A programação destinada às escolas foi construída com professores e bibliotecários ou apenas encaixada na agenda do evento?
- Quais atividades de leitura continuaram depois da feira?
- As autoridades receberam tratamento institucional ou transformaram a abertura em exposição pessoal?
- Quem indicou os integrantes da comissão organizadora e da curadoria?
- As instituições culturais escolheram seus representantes ou a prefeitura selecionou individualmente quem seria ouvido?
- Houve participação formal do Conselho Municipal de Cultura e de entidades independentes da gestão?
- Foram convidados representantes que mantêm posições críticas em relação ao governo municipal?
- Quais segmentos culturais da cidade não tiveram representação?
- O prefeito participou como autoridade institucional ou foi colocado no centro narrativo e visual do evento?
- Os canais oficiais divulgaram prioritariamente livros, autores e atividades ou concentraram a cobertura na presença do gestor?
- O tempo destinado aos pronunciamentos políticos foi proporcional ou ocupou espaço que deveria pertencer à programação literária?
Uma feira literária não deve ser julgada apenas pela lotação do espaço. Shows podem reunir multidões, visitas escolares podem elevar os números de presença e influenciadores podem multiplicar visualizações, sem que isso produza necessariamente leitura. O resultado precisa ser medido também pelo acesso ao livro, pela diversidade editorial, pela circulação das obras, pela participação dos autores do território, pela continuidade das ações e pela formação efetiva de leitores.
Questionar essas estruturas não significa desmerecer as feiras literárias. Significa recusar que o valor simbólico do livro seja usado para proteger decisões pouco transparentes. Se os recursos pertencem à sociedade, a programação não pode pertencer a um grupo político, a uma comissão fechada, a uma rede de amizades ou a um pequeno circuito comercial. A feira continuará sendo necessária, mas sua importância não deve dispensá-la de explicar quem escolheu, quem recebeu, quem vendeu, quem foi excluído e quem pretende colher politicamente os resultados.
REFERÊNCIAS
Fontes consultadas
- Programa Bahia Literária — Governo da Bahia
- Retratos da Leitura no Brasil — Instituto Pró-Livro
- Relatório de Gestão 2025 — Ministério da Cultura
- Lei nº 13.019/2014 — Presidência da República
- Transparência — Feira do Livro de Joinville
- Curadoria literária na Bahia — Revista Conhecimento em Ação
- Veto a Milly Lacombe na FLIM — Poder360
- Mudança de local da Flipei 2025 — Poder360
- Seleção de editoras e livrarias — Prefeitura de Curitiba
- Credenciamento da Feira Literária — Prefeitura de Três de Maio
- Feira do Livro do Festival Mário de Andrade — Prefeitura de São Paulo


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