Há poucos anos, a discussão sobre tecnologia na escola estava concentrada em computadores, internet, plataformas educacionais e, mais recentemente, no uso dos celulares. A inteligência artificial modificou esse cenário porque não trouxe apenas um novo equipamento ou aplicativo. Trouxe ferramentas capazes de produzir textos, imagens, apresentações, resumos, traduções, exercícios, explicações e respostas em poucos segundos.
E elas não estão esperando uma decisão da escola para serem utilizadas.
Professores já recorrem à inteligência artificial para organizar atividades, pesquisar possibilidades de aula ou preparar materiais. Estudantes utilizam ferramentas generativas para responder questões, resumir conteúdos e produzir trabalhos. Famílias também começam a utilizá-las para pesquisar e auxiliar nas tarefas escolares.
A discussão, portanto, deixou de ser simplesmente se a inteligência artificial deve entrar na educação. Ela já entrou. A questão mais importante é outra: o que a escola pretende ensinar seus estudantes a fazer com ela?
Da proibição do celular ao uso consciente da tecnologia
O Brasil passou recentemente por uma discussão semelhante em relação aos celulares.
A Lei nº 15.100/2025 estabeleceu restrições ao uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais durante aulas, recreios e intervalos na Educação Básica, preservando situações de utilização pedagógica e outras hipóteses previstas na legislação.
A medida trouxe uma distinção importante para o debate educacional: restringir determinados usos da tecnologia não significa retirar a educação digital da escola.
Uma escola pode limitar o celular durante determinados momentos e, ao mesmo tempo, ensinar seus estudantes a pesquisar, avaliar fontes, reconhecer desinformação, proteger dados pessoais e utilizar tecnologias digitais de maneira responsável. Com a inteligência artificial, essa distinção se torna ainda mais necessária.
O estudante perguntou. A IA respondeu. Houve aprendizagem?
Imagine uma atividade relativamente simples: “Explique as principais causas da Revolução Francesa.”
Um estudante pode pesquisar em livros, consultar diferentes fontes, selecionar informações, estabelecer relações entre acontecimentos e construir sua própria explicação. Também pode escrever a pergunta em uma ferramenta de inteligência artificial e receber, poucos segundos depois, uma resposta organizada.
Nos dois casos haverá um texto, mas não necessariamente haverá o mesmo processo de aprendizagem.
Esse talvez seja um dos pontos centrais da discussão sobre inteligência artificial na educação: a existência de uma resposta correta não comprova que houve aprendizagem.
Durante muito tempo, grande parte das atividades escolares foi construída em torno da produção de uma resposta final. A inteligência artificial evidencia uma fragilidade desse modelo, porque tornou extremamente fácil produzir determinados resultados sem necessariamente percorrer o processo intelectual que deveria antecedê-los.
Isso não significa que toda utilização de IA represente fraude ou prejudique a aprendizagem. Significa que algumas atividades precisarão ser repensadas.
Talvez seja necessário mudar também a pergunta
Se uma atividade pode ser integralmente realizada por uma ferramenta em poucos segundos, a primeira reação pode ser tentar impedir o acesso à ferramenta. Mas existe uma segunda possibilidade: rever a própria atividade.
Em vez de apenas solicitar um texto sobre determinado assunto, o professor pode pedir que o estudante compare duas explicações, identifique informações incorretas, localize as fontes utilizadas, apresente argumentos, explique oralmente suas conclusões ou relacione o conteúdo a uma situação estudada em sala.
A inteligência artificial pode, inclusive, integrar esse processo. O estudante pode receber uma resposta produzida por IA e ser desafiado a verificar se ela está correta; pode comparar uma resposta automática com o livro didático, identificar afirmações sem evidências, solicitar diferentes explicações para o mesmo problema e avaliar qual delas é mais consistente ou analisar os limites da própria ferramenta.
Nesse caso, a IA deixa de funcionar como substituta do estudante e passa a constituir objeto de análise.
Inteligência artificial também erra
As ferramentas de inteligência artificial podem produzir respostas convincentes e incorretas ao mesmo tempo. Podem apresentar informações imprecisas, inventar referências, simplificar acontecimentos históricos, reproduzir vieses existentes nos dados utilizados em seu desenvolvimento ou oferecer respostas inadequadas ao contexto.
Durante muitos anos, ensinar a pesquisar significava, em grande medida, ensinar o estudante a encontrar informação. Agora será cada vez mais necessário ensiná-lo também a questionar a informação que encontrou, inclusive quando ela estiver muito bem escrita.
Uma resposta organizada, segura e aparentemente sofisticada não é necessariamente verdadeira. Essa compreensão aproxima o debate sobre inteligência artificial da educação digital e midiática: autoria, fontes, evidências, privacidade, direitos autorais, desinformação e responsabilidade precisam fazer parte da formação dos estudantes.
E o professor?
Também seria um equívoco discutir inteligência artificial apenas pelo comportamento dos alunos.
As ferramentas generativas podem apoiar diferentes atividades docentes: elaboração inicial de questões, organização de sequências didáticas, criação de exemplos, adaptação preliminar de textos, produção de alternativas de atividades e estruturação de materiais.
Mas existe uma diferença importante entre utilizar inteligência artificial como ferramenta de apoio e transferir a ela a decisão pedagógica.
Uma plataforma não conhece, por si mesma, a turma, não acompanha a trajetória individual dos estudantes, não compreende integralmente o currículo local, não substitui a observação do professor e não assume responsabilidade pedagógica pelo que produz.
Por isso, qualquer conteúdo gerado por IA para utilização educacional precisa passar pela análise profissional do educador. Quanto mais fácil se torna produzir materiais, maior passa a ser a importância de saber avaliá-los.
O problema não se resolve comprando uma plataforma
A incorporação da inteligência artificial à educação não deve ser confundida com a simples aquisição de ferramentas tecnológicas. Antes de contratar plataformas, sistemas ou soluções baseadas em IA, uma Secretaria de Educação precisa compreender qual problema educacional pretende resolver.
A tecnologia será utilizada por quem? Para qual finalidade? Em quais etapas de ensino? Que dados serão coletados? Como será protegida a privacidade de estudantes e profissionais? Existe formação para os professores? A solução é compatível com a infraestrutura disponível? Como seus resultados serão acompanhados? Qual benefício pedagógico justifica o investimento público?
Essas perguntas precisam anteceder a escolha da solução. Em contratação pública, novidade tecnológica não constitui, por si mesma, justificativa suficiente para contratar.
A desigualdade digital continua existindo
Existe também um risco de tratar a inteligência artificial como se todos os estudantes brasileiros estivessem partindo das mesmas condições. Não estão.
Enquanto algumas escolas dispõem de internet adequada, equipamentos, plataformas e suporte técnico, outras ainda enfrentam dificuldades básicas de conectividade e infraestrutura. Mesmo dentro de uma única rede municipal, as condições podem variar significativamente entre escolas, territórios e famílias.
Uma política educacional baseada em tecnologia precisa considerar essas diferenças para não transformar uma ferramenta potencialmente útil em novo fator de desigualdade. Não basta perguntar o que a inteligência artificial consegue fazer. É necessário perguntar quem consegue utilizá-la, em quais condições e para quais finalidades.
O que as redes de ensino precisam começar a discutir
A presença da inteligência artificial exige decisões que ultrapassam a sala de aula. Secretarias e escolas precisarão construir orientações sobre utilização pedagógica, autoria, avaliação, proteção de dados, formação docente, educação digital e responsabilidades dos estudantes.
Também será necessário rever determinadas práticas avaliativas. Um trabalho produzido integralmente fora da escola e entregue como produto final talvez diga cada vez menos sobre aquilo que o estudante efetivamente sabe.
Processos de produção acompanhados, registros de percurso, apresentações orais, resolução comentada de problemas, atividades presenciais, projetos e outras estratégias podem ganhar importância justamente porque permitem observar não apenas o resultado, mas também o processo de aprendizagem.
Ensinar a usar também significa ensinar quando não usar
Competência digital não significa utilizar tecnologia o tempo inteiro. Um estudante digitalmente competente também precisa saber reconhecer situações nas quais consultar uma ferramenta é inadequado, desnecessário ou prejudicial ao próprio processo de aprendizagem.
Há momentos para pesquisar, utilizar inteligência artificial ou trabalhar colaborativamente, assim como há momentos em que o estudante precisa ler, escrever, calcular, interpretar, argumentar e resolver problemas sem qualquer mediação tecnológica. A escolha também faz parte da aprendizagem.
A escola não precisa competir com a inteligência artificial
Talvez uma das maneiras menos produtivas de compreender essa transformação seja imaginar uma disputa entre professores e máquinas.
A escola possui funções que não se resumem à transmissão rápida de informações. Ensinar envolve selecionar conhecimentos, organizar experiências, acompanhar processos, formular perguntas, avaliar aprendizagens, promover convivência, desenvolver autonomia e ajudar crianças e adolescentes a compreender o mundo em que vivem.
A inteligência artificial modifica algumas ferramentas utilizadas nesse processo, mas não elimina essas responsabilidades. Ao contrário, pode torná-las ainda mais importantes.
Se produzir uma resposta se tornou fácil, compreender, verificar, interpretar e argumentar sobre essa resposta passa a ter ainda mais valor. É nesse ponto que provavelmente estará uma das tarefas mais importantes da educação nos próximos anos.
Fontes e referências
- Ministério da Educação — Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação.
- Ministério da Educação — orientações sobre caminhos curriculares e práticas éticas de uso de inteligência artificial nas escolas.
- Lei nº 15.100/2025 — utilização de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos de Educação Básica.
- Resolução CNE/CEB nº 2/2025 — utilização de dispositivos digitais e integração curricular da educação digital e midiática.
- Base Nacional Comum Curricular — BNCC.
- Lei nº 9.394/1996 — Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.


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